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Aula 05 - Ética e Qualis (16/03/2026)

Bem-vindos à nossa quinta aula. Hoje, abordaremos um tema fundamental para a formação de qualquer pesquisador: a relação indissociável entre a produção do conhecimento científico, a ética e as pressões do sistema acadêmico atual, com foco no sistema Qualis.

1. A Intersecção entre Ciência e Ética

Historicamente, a ciência é descendente da filosofia, sendo a ética, até os dias de hoje, uma de suas áreas mais importantes [1]. É muito comum pensar na ciência (geração de conhecimento) e na ética (discussão das ações humanas e suas repercussões) como disciplinas totalmente autônomas e independentes [1]. No entanto, a busca pelo conhecimento científico não ocorre em um vácuo, e as ligações entre ciência e ética são profundas e podem ser estudadas em três esferas principais [1, 2].

2. As Três Esferas da Ética na Ciência

O professor Silvio Seno Chibeni destaca três casos em que as implicações éticas se manifestam de forma decrescente em sua evidência [1, 2]:

3. Atitudes Éticas Básicas do Pesquisador

No dia a dia do pesquisador, a ética deve ser a base de qualquer trabalho. Algumas atitudes éticas fundamentais incluem [7]: 1. Citar e referenciar corretamente, escolhendo sempre boas fontes de pesquisa. 2. Jamais inventar, "cozinhar" ou distorcer trabalhos, resultados ou dados experimentais.

4. O Sistema Qualis e as Críticas à Pesquisa Atual

No ecossistema da pesquisa brasileira, o pesquisador se insere em uma realidade de cobranças e métricas, onde o Currículo Lattes é imprescindível para a obtenção de bolsas e financiamentos junto a órgãos de fomento (como CNPq, CAPES, etc.) [8, 9]. É nesse contexto que entra o sistema Qualis, que classifica os periódicos científicos.

Essa estrutura, no entanto, é alvo de severas críticas éticas e metodológicas na atualidade [8, 10]: * A ditadura da publicação: Programas de Pós-Graduação sofrem imensa pressão para publicar o maior número de artigos possível a fim de aumentar seus conceitos [10]. * Ocultação de resultados negativos: Artigos científicos que relatam resultados negativos raramente ganham destaque em periódicos de alto prestígio (classificados como A1, A2, B1, B2 no Qualis) [10]. * Falta de fomento para reprodutibilidade: Projetos de pesquisa que visam apenas a reprodução de trabalhos para confirmação de resultados dificilmente conseguem financiamento [8, 10]. * Comercialização da Ciência: Existem muitos periódicos que cobram taxas altíssimas dos pesquisadores, seja para a submissão dos artigos ou para o acesso às bases de dados [10].

Diante desse cenário, levanta-se um questionamento ético fundamental: Qualis é sinônimo de qualidade? [10]. Será que avaliar um pesquisador apenas pelo número de publicações implica, necessariamente, que ele é um cientista de melhor qualidade? E onde ficam o ensino e a extensão, seriam eles menos importantes do que a pesquisa acadêmica voltada à publicação? [10].

5. Conclusão

A formação de um cientista moderno exige não apenas o rigor metodológico, mas também uma profunda reflexão ética. O pesquisador deve estar atento para não ceder às pressões de um sistema produtivista que, muitas vezes, valoriza mais a quantidade (Qualis e número de publicações) do que a integridade, a verdade dos dados e o real benefício social do conhecimento produzido [3, 7, 10].